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Moda agora é fazer vaquinha pela internet Site criado em janeiro para esse fim já tem mais de três mil adeptos em todo o país
Luisa Medeiros
Publicação: 13/07/2009 08:36 Atualização: 13/07/2009 08:48
O vestido de formatura da concluinte do ensino médio Ana Beatriz de Oliveira Silva, 18 anos, vai ser assim: longo, cruzado nas costas e absolutamente vermelho. O modelo foi desenhado pela própria estudante – que se aventurou em fazer seu primeiro croqui. A intenção dela não é se tornar estilista. Aliás, Ana Beatriz quer prestar vestibular para o curso de direito. Mas colocar no papel o tal do vestido parece ser o primeiro passo para a realização de seu sonho. O segundo passo depende da ajuda de amigos, parentes ou algum desconhecido que queiram colaborar com a ‘vaquinha’ que Ana Beatriz criou para ela mesma na internet.
Andréia com o filho Rafael: de olho em disputa mundial
Na rede mundial de computadores, a garota pede R$ 400 para comprar o tecido e mandar fazer o traje de gala. Usa como argumento a fortuna que os pais já terão que gastar com a festa de formatura. Criada há uma semana, a vaquinha de Ana Beatriz teve 44 visitantes e um deles doou R$ 10 . “Estou pedindo humildemente o dinheiro. Me considero modesta porque tem gente que pede muito mais”, acredita.
Como se autodenomina uma pedinte virtual, Ana Beatriz tem mais duas solicitações: R$ 40 para ir ao retiro espiritual organizado pela igreja que frequenta e R$ 1 mil para custear a viagem que pretende fazer ao Rio de Janeiro, ano que vem, para assistir ao show do U2. “Eu sou muito fã deles e quando vieram ao Brasil, há três anos, eu não tinha idade para ir ao show. Ano que vem, vou de qualquer jeito”, afirma. Até agora, a estudante arrecadou R$ 15 com suas vaquinhas, mas não está desanimada. “Acabei de criá-las e ainda pouca gente conhece esse novo jeito de arrecadar dinheiro”, defende ela.
É no site www.vakinha.com.br onde Ana Beatriz e milhares de brasileiros fazem seus pedidos. Criado em janeiro deste ano, por três gaúchos que queriam dar o presente ideal para amigos recém-casados, o site virou uma saída para quem quer angariar fundos independentemente da causa. “O casal pedia dinheiro porque estava de mudança para a Espanha e começamos a fazer a tradicional vaquinha, coletando dinheiro e guardando no envelope. Foi quando percebemos como seria fácil e ágil fazer a arrecadação via internet e o saque direto da conta bancária”, lembra um dos criadores e diretor comercial do Vakinha, Fabrício Milesi.
Depois de reuniões entre os sócios para definir melhor a nova ferramenta, o Vakinha se mostrou um negócio original e divertido. Logo vieram as parcerias e o site entrou no ar pelo portal Uol. “Tivemos a preocupação de criar uma ferramenta transparente e segura porque exige transações bancárias para o seu funcionamento”, esclarece Milesi. Um mês após a sua criação, o site já tinha 500 usuários cadastrados — chamados de vaqueiros —, e mais de 10% eram noivos pedindo dinheiro para o casamento. Hoje, são três mil vaqueiros que pedem dinheiro para tudo: comprar uma televisão, financiar o aniversário do avô, fazer uma cirurgia plástica, pagar a primeira prestação da casa própria, ajudar alguma instituição de caridade. Vale qualquer pedido de qualquer valor. E pode-se doar qualquer quantia também.
Fazer a vaquinha na internet é simples e de graça (veja o passo a passo abaixo). Segundo Milesi, o site recebe cerca de dois mil acessos por dia. As doações variam de R$ 30 a R$ 50.
O patinador Rafael Akio, 13 anos, pretende realizar seu sonho com o dinheiro da vaquinha virtual feita pela mãe, Andréia Alves da Fonseca, 34. Com três anos de experiência na patinação, ele foi convidado no mês passado a fazer parte da Seleção Brasileira da modalidade. O grupo foi convocado para o campeonato mundial que ocorre, entre 16 e 27 de setembro, na China. Mas o atleta, que atualmente não tem patrocínio, precisa levantar fundos para comprar a passagem de R$ 4,7 mil com destino à cidade chinesa de Haining.
Para levar o filho à China, Andréia não pensou duas vezes quando a irmã Stella da Fonseca, 23 anos, comentou sobre o site. Fez o cadastro e enviou mais de duas mil mensagens, via e-mail, pedindo contribuições. “Preciso levantar esse dinheiro e vou conseguir”, aposta ela. Para sua surpresa, em poucos dias, foram debitados na conta virtual 23% do valor solicitado, equivalentes a R$ 1,1 mil. “Sinal de que ainda há gente disposta a ajudar os outros. Recebemos doações de parentes distantes e amantes da patinação que moram no Rio de Janeiro”, diz.
Diante do resultado positivo da irmã, Stella e o noivo, Victor Loureiro, 28 anos, fizeram uma vaquinha para comprar a cama de R$ 3 mil que vai fazer parte da casa nova. Eles pretendem se casar no ano que vem, já têm algumas economias, mas toda ajuda é bem-vinda. “Quem ama quer cama nova e quem é amigo de verdade vai nos ajudar”, brinca ela.
Onde surgiu
Fazer uma vaquinha - A expressão, que significa reunir pessoas e arrecadar dinheiro para um fim específico, surgiu na década de 1920, quando poucos jogadores de futebol recebiam salário. Naquela época, a torcida juntava dinheiro para recompensar o bom desempenho dos jogadores. O valor desse prêmio era associado ao jogo do bicho, uma espécie de loteria criada no fim do Império. Se conseguissem juntar 5 mil réis,
por exemplo, chamavam o prêmio de “cachorro”, já que cinco era o número desse animal no jogo do bicho. Vinte e cinco mil, que era o prêmio máximo, era chamado de “vaca”, daí surgiu a expressão “fazer vaquinha”.