O casamento d’Ela

Numa narrativa que lembra um conto de fadas e nos desperta a certeza de que podemos sonhar, Ela, após uma vida de grandes desafios, há de viver feliz para sempre; seu tão sonhado casamento é capítulo escrito pelas mãos de centenas de internautas

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Imagem ilustrativa

Morremos em vida infinitas vezes, e infinitas são os braços que nos ajudam a levantar e seguir caminhando. Ela, como descreve seu padrinho de casamento, Rodrigo Barbosa, é exemplo vivo de persistência e luta. E, agora, com a ajuda de centenas de brasileiros, amigos e anônimos, escreve um novo capítulo em sua vida. Sua história, cheia de obstáculos, tem um final feliz: vestido branco, um bolo, uma festa, e um sorriso contagiante.

Moça perseverante e forte, entre seus muitos sonhos estão casar-se e ter um final de semana livre apenas para si. Convidado para ser padrinho, além de comprar o bolo do casamento, Rodrigo foi além e, contando com a solidariedade, recorreu a internet para juntar dinheiro e garantir que Ela subisse ao altar.

A campanha que tinha como meta alcançar R$3.900,00 para garantir “pelo menos a festa”, em poucos dias chegou a quase o triplo de seu objetivo. Ao todo foram 159 doações e mais de R$9.000,00 arrecadados.

A História

Apesar dos muitos percalços de sua vida, Ela segue com um espirito jovem e alegre, que se reflete em sua aparência, assim como conta seu amigo Rodrigo. “Ela é uma menina jovem. Se incomoda por ter uma carinha de 18, mas deve estar chegando perto dos 30. Magrela, linda, sorrisão no rosto.” Mora numa cidadezinha longe da capital carioca, e nunca conheceu nada distante de ali.

Ela conheceu Rodrigo em um momento de grande dificuldade. Mãe sozinha – o pai da menina faleceu -, casou-se uma segunda vez. Passou um tempo com seu novo companheiro até que este adoeceu e morreu. A mãe do rapaz escondeu o motivo para sua nora, mas o espalhou entre amigos. Seu filho tinha AIDS, e provavelmente Ela também deveria ter a doença.

Ela novamente encontrou um parceiro. Vaidosa, buscou auxilio médico para saber o porquê de não conseguir ganhar peso. Cidade pequena, os boatos se espalham. O médico, seu amigo, junto aos exames, incluiu o teste de HIV. O resultado deste faria seu mundo se abalar como nunca antes.

“Ela conta sobre o casamento com os olhos brilhando. Brilhando mesmo!”

Em meio a dificuldade de aceitação e toda ignorância e preconceito acerca do vírus, teve que reunir forças para contar isso ao namorado. Tinha medo, sobretudo, de ficar só outra vez.
Mas após tantas recaídas, a vida lhe estendeu a mão; o namorado não estava doente, e mais: o sonho de casamento seguia firme! “Ela conta sobre o casamento com os olhos brilhando. Brilhando mesmo! […] De surpresa, fui convidado a ser padrinho. ‘Mas é muito longe. O senhor vai?’. Ela me disse que queria que fosse eu porque a aceito ‘com esse problema’. Que vontade de chorar”, relembra Rodrigo.

Vakinha

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O sonho do casamento tornou-se real com o Vakinha e com a ajuda dos amigos

 

Casamento marcado, lista de convidados feita, espaço reservado. Com o sonho no papel, a realidade pedia apenas a quantia financeira necessária para consolidar a união do casal. O carro foi vendido para pagar os docinhos, mas o dinheiro ainda não foi suficiente. Nisso Rodrigo, escutando amigos, acatou a ideia de buscar ajuda na internet. A tentativa e a narrativa sensível despertaram a emoção dos internautas, e não faltaram pessoas para ajudar Ela.

“O que me animou é que as pessoas ainda sonham, e por isso se identificaram com esse sonho.”

Tendo a escrita como hobbie, Rodrigo contou a história D’ela no Medium e compartilhou o link no Facebook. Amigos, sensibilizados com o que leram, lhe sugeriram criar uma Vakinha para organizar as doações. E não demorou para o primeiro sinal de sucesso chegar: com cinco minutos no ar, a campanha já contava com uma doação de R$500.

Rodrigo relembra que chorou quando recebeu uma ligação de seu companheiro, informando-o que a meta foi atingida. “Hesitei muito em fazer o cadastro no Vakinha, pois estamos num momento de crise. E pensei que as pessoas não ajudariam para um sonho ‘supérfluo’ como pode parecer um casamento, quando há causas como de doenças, por exemplo, para se ajudar. O que me animou é que as pessoas ainda sonham, e por isso se identificaram com esse sonho”.

O padrinho credita o sucesso da campanha à forma sincera com a qual criou sua narrativa. “É no jeito que contamos a história que convencemos e emocionamos as pessoas. Não precisa ser apelativo, tem que ser pessoal e verdadeiro”, explica. Se a organicidade de sua publicação no Facebook bastou para alcançar o valor estipulado, as doações se multiplicaram com uma matéria veiculada pelo site de humor “Sensasionalista”. A campanha alcançou mais que o dobro da meta: foram 159 doações e um total de R$9.050 alcançados até o momento. O casamento está garantido, e a viagem também.

Final Feliz

Como num conto de fadas, o final é feliz e se passa no altar
Como num conto de fadas, o final é feliz e se passa no altar

“Ela só foi em um casamento em toda vida, […] como resultado, a expressão de surpresa e encantamento não saem de seu rosto.” Se de um lado Rodrigo, que “acabou tornando-se também o organizador do casamento”, relata a emoção da amiga, conta também que se emocionou mais de uma vez com tantas amostras de solidariedade e bondade que presenciou. Aponta que além das doações em dinheiro, teve gente que ofereceu o vestido, doces, cartões de casamento, maquiagem para a noiva, entre outros.

O filosofo renascentista francês Rousseau acreditava que em essência o ser humano era bom, mas que a sociedade podia modificá-lo. Opinião refletida também nos ensinamentos que essa história trouxe para Rodrigo: “O Vakinha me fez renovar a esperança no ser humano. Ao contrário do que imaginamos, que todo mundo é egoísta e não se importa com os outros, as pessoas são do bem!”. Lembra ainda que muitas pessoas o agradeceram pois “queriam ajudar alguém de alguma forma, e não sabiam a quem”, e ao lerem a história se sentiram identificados e felizes em ter a oportunidade de realizar uma boa ação.

“O Vakinha me fez renovar a esperança no ser humano.”

“Fazer o bem sem olhar a quem”, a velha máxima se encaixa perfeitamente na história d’Ela. O relato emocionado de Rodrigo, e sua certeza de que sentimento de humanidade está instaurado em nossos corações, se refletem em seu agradecimento. “Quero agradecer a todas pessoas que acreditaram numa história com um personagem sem nome e sem cara. Que acreditaram que é permitido sonhar!”

Vestido encomendado, salão de festas alugado, viagem programada. “Tudo está encaminhado”. O final dessa história é feliz e termina no altar. O posfácio se dá com um casal apaixonado de frente para o mar com uma viagem à Cabo Frio, no Rio de Janeiro. A menos de 30 dias para o casamento (12 de maio), um novo e mais leve capítulo está sendo escrito.

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